domingo, março 17, 2019

16 de Março de 1974 - O levantamento das Caldas

A 16 de Março de 1974 deu-se um levantamento militar nas Caldas da Rainha, este levantamento pretendia por fim à ditadura do Estado Novo em Portugal! O golpe falhou, mas no entanto, ficou bem patente que a reacção do regime não foi tão forte como havia sido em movimentos deste tipo noutros períodos da Ditadura em Portugal. Sendo assim este levantamento pode ser visto como um percursor, até um ensaio para o golpe que irá por fim à Ditadura, pouco mais de mês depois a 25 de Abril de 1974.


António Manuel Guimarães

sábado, fevereiro 16, 2019

Fernando Pessoa

(imagem in blog. deixalaentrar)

Ponto prévio, apenas li Fernando Pessoa quando estava na escola, e confesso que li porque fui obrigado a isso, fiz um trabalho com alguns colegas porque assim foi exigido pela professora de Língua Portuguesa e tenho que dizer que nunca gostei de ler Pessoa, simplesmente não me cativa. No entanto e tal como me foi explicado na escola, lá porque eu não gosto não significa que eu não deva reconhecer a genialidade quando ela existe. E hoje, de facto, compreendo a genialidade de Pessoa, mesmo que ache que ele é um louco, mas qual é o génio que não é um louco?
Posto isto, quero falar da minha opinião relativamente às diversas controvérsias, ou polémicas em que a obra de Fernando Pessoa está actualmente envolvida. A primeira polémica foi sobre a “Ode Triunfal”, considerada por muitos como uma obra prima, parece que agora, ou seja, na era dos “ofendidinhos” e militantes da ditadura do “politicamente correcto”, estes arautos da pureza intelectual, descobriram que está presente uma estrofe que fala num acto sexual que configura pedofilia e de facto, numa observação literal, está. Mas está porquê? Será porque Fernando Pessoa, ou melhor, Álvaro de Campos aprova relações com menores? Ou será, e esta é a minha humilde opinião, que Álvaro de Campos pretende dar um exemplo da degeneração da civilização Europeia do seu tempo?! Concordo com Jacinto do Prado Coelho quando diz que a utilização destes termos pretende transmitir uma carga incisiva e mordaz, revoltado e torrencial. Assim devemos concluir que a polémica inserida na agenda sobre a “Ode Triunfal” foi apenas mais um acto de censura que a “ditadura do politicamente correcto” fez para agradar aos “ofendidinhos”, que não passam de seres vazios que não conseguem entender o que lêem e não conseguem ir para lá do que está escrito, e estão bem longe de perceber o contexto em que aquela obra se insere.
E falando em contexto entra a segunda polémica, nestes primeiros dias de Fevereiro, surgiu uma nova contestação e esta não recai sobre nenhum heterónimo, é mesmo sobre o homem Fernando Pessoa. Esta nova polémica surge, porque em Angola, alguns académicos defendem que Pessoa seja retirado das obras em estudo do espaço da lusofonia, porque, dizem, era racista! Engraçado, porque com esta “descoberta” iluminada só me apraz dizer que estes académicos são apenas e só, deixa lá ver se digo isto de uma forma simpática, ignorantes. Então esperavam eles que Pessoa nascido no século XIX e que morreu na década de 30 do século XX fosse um individuo com as concepções ideológicas que apenas se foram generalizando na segunda metade do século XX. Felizmente todas as pessoas de bem não são racistas, para mim o racismo nos dias de hoje é simplesmente inaceitável! No entanto temos que admitir que não podíamos esperar que Pessoa pensasse desta forma, seria no mínimo estranho se o fizesse, pois logicamente o seu pensamento estava de acordo com a mentalidade da sua época. Aliás vejam Camões, vejam todos os Reis desde D. João I a D. Luís, vejam todos os escritores portugueses até 1878 e proíbam o estudo de todos eles. E mais, apesar da proibição da escravatura em 1878, tantos séculos de escravidão e domínio não se apagam de um dia para o outro, ainda na guerra colonial portuguesa, o principio do racismo continuava fortemente presente, ou seja, até 1974 e hoje ainda não desapareceu, persiste de forma latente, temos até candidatos às europeias, arautos dos “ofendidinhos”, que o proclamam abertamente. No entanto, a menos que estes “académicos” queiram proibir todos os autores portugueses até à década de 60 do século XX, deixem-se de tretas, e se quiserem perceber então estudem história, percebam que as mentalidades mudam, assim como não podemos exigir que um autor do passado escreva segundo os cânones do aceitável dos dias de hoje e, convenhamos, é também um claro sinal de ignorância estudar algo do passado sem ter a capacidade abstracta de perceber que a mentalidade era necessariamente diferente, pensar e agir assim é somente um sinal de falta de inteligência e retira qualquer legitimidade à argumentação angolana!  

António Manuel Guimarães

sexta-feira, fevereiro 08, 2019

"Cansei-me, rendo-me..."

Leonardo Haberkorn, jornalista e escritor, era professor numa universidade de Montevideo. Deixou o ensino, que antes o apaixonava, e explica porquê.
"Depois de muitos e muitos anos, hoje dei a última aula na Universidade.
Cansei-me de lutar contra os telemóveis, contra o whatsapp e contra o facebook. Ganharam-me. Rendo-me. Atiro a toalha ao chão.
Cansei-me de falar de assuntos que me apaixonam perante jovens que não conseguem desviar a vista do telemóvel que não pára de receber selfies.
Claro que nem todos são assim. Mas cada vez são mais
Até há três ou quatro anos a advertência para deixar o telemóvel de lado durante 90 minutos, ainda que fosse só para não serem mal-educados, ainda tinha algum efeito.
Agora não. Pode ser que seja eu, que me desgastei demasiado no combate. Ou que esteja a fazer algo mal.
Mas há algo certo: muitos desses jovens não têm consciência do efeito ofensivo e doloroso do que fazem. Além disso, cada vez é mais difícil explicar como funciona o jornalismo a pessoas que o não consomem nem vêem sentido em estar informadas.
Esta semana foi tratado o tema Venezuela. Só uma estudante entre 20 conseguiu explicar o básico do conflito. O muito básico. O resto não fazia a mais pequena ideia. Perguntei-lhes (...) o que se passa na Síria? Silêncio. Que partido é mais liberal ou que está mais à 'esquerda' nos Estados Unidos, os democratas ou os republicanos? Silêncio. Sabem quem é Vargas Llosa?
Alguém leu algum dos seus livros? Não, ninguém! Lamento que os jovens não possam deixar o telemóvel, nem na aula. Levar pessoas tão desinformadas para o jornalismo é complicado.
É como ensinar botânica a alguém que vem de um planeta onde não existem vegetais. Num exercício em que deviam sair para procurar uma notícia na rua, uma estudante regressou com a notícia de que se vendiam, ainda, jornais e revista na rua.
Estes jovens, que continuam a ter inteligência, simpatia e afabilidade, foram enganados, a culpa não é só deles. A incultura, o desinteresse e a alienação não nasceram com eles.
Foram-lhes matando a curiosidade e, cada professor que deixou de lhes corrigir as faltas de ortografia, ensinou-lhes que tudo é mais ou menos o mesmo. Então, quando compreendemos que eles também são vítimas, quase sem darmos conta vamos baixando a guarda.
E o mau é aprovado como medíocre e o medíocre passa por bom, e o bom, as poucas vezes que acontece, celebra-se como se fosse brilhante. Não quero fazer parte deste círculo perverso. Nunca fui assim e não serei assim.
O que faço sempre fiz questão de o fazer bem. O melhor possível. E não suporto o desinteresse face a cada pergunta que faço e para a qual a resposta é o silêncio. Silêncio. Silêncio. Silêncio. Eles queriam que a aula terminasse. Eu também."

sexta-feira, fevereiro 01, 2019

Pouca Vergonha CGD

O Parlamento fez bem em divulgar a auditoria, no entanto depois de ler esta pouca vergonha fica a questão, quando é que vão dar entrada os processos crime de quem agiu desta forma?
No entanto ainda bem que os Jornais descarregaram a informação, porque entretanto a informação já desapareceu do site do Parlamento!
Quem estiver interessado, entre no artigo e encontrará o link para este indecoroso documento logo nas primeiras linhas.

quinta-feira, janeiro 31, 2019

Caso Caixa


Toda a minha vida fui cliente da Caixa Geral de Depósitos, não por ser um grande banco, não por ser mais vantajoso, mas por ser o banco dos meus pais e, portanto, o banco em que a certa altura eles abriram uma conta em meu nome, conta que mantive. A grande vantagem da Caixa sempre foi o facto de ser do estado e por conseguinte ser seguro face a qualquer instabilidade e num caso de caos ser o último banco a cair. No entanto e por ser do estado nunca foi um banco com grandes taxas de juro e assim não dava grande lucro em depositar o dinheiro, mas em compensação tinha taxas de manutenção de conta que eram ou mais baixas que a concorrência ou em determinados casos simplesmente não existiam.
No entanto, a determinada altura, algo mudou, ali no período final da crise o banco começou a mostrar um comportamento diferente, falava em prejuízos, as antigas contas a prazo estavam a ser descontinuadas e tudo o que se fazia tinha custos, havia balcões a fechar e despedimentos. A presidência do banco falava em situação delicada e necessidade de voltar aos lucros nem que para isso tivessem que ser os clientes a pagar. E quando Paulo Macedo foi para a frente do banco era evidente que o problema era sério, porque Paulo Macedo é conhecido por ser um homem que resolve casos difíceis, o governo já havia recorrido a ele quando era imperativo rever o sistema de imposto nomeando-o Diretor-Geral dos Impostos.  Mas na caixa o problema parecia ser ainda mais complexo, cada vez mais custos, cada vez menos produtos vantajosos, cada vez menos vantagens, cada vez mais parecido com um banco privado que busca o lucro e não servir o cidadão como é função de qualquer serviço do estado.
Sinceramente quando tudo isto começou foi fácil chegar a uma conclusão e ainda por cima era algo que até os funcionários do banco davam como desculpa, mas francamente parecia lógico. Era o seguinte, devido à crise o Banco Central Europeu baixou as taxas de juro e a certa altura passou mesmo a ser 0%, ou seja, procurou-se com isso aliviar as pessoas que estavam a pagar empréstimos,  mas por outro lado e com esta perda os bancos deixaram de ter condições para pagar as taxas de juro contratadas nos depósitos a prazo e com esse prejuízo não encontraram outra alternativa que não fosse cobrar a quem deposita, curiosamente cobrar a quem é poupado para pagar por quem não consegue, por razões várias, pagar o que deve. Era simples e, embora pouco justo, batia certo.
Mas eis que esta semana ficámos a saber, entretanto que o grande problema da Caixa Geral de Depósitos, a razão que a fazia e faz estar em maus lençóis é um problema muito grande e muito pouco honesto. A Caixa durante vários anos andou a emprestar a “amigos”, para negociatas ruinosas, sem controlo, sem regras, totalmente escandaloso, às vezes empréstimos superiores aos activos ou seja sem garantias, de empresas que mesmo com esse dinheiro ficaram insolventes, assim como casos de empresários falidos a pedir 280 Milhões de euros e foi concedido, no total e só juntando os nove primeiros devedores há “mais de 2,3 mil milhões de euros de empréstimos em risco de não serem pagos” e tudo isto feito sem controlo pois “Segundo o relatório da consultora Ernst & Young, não se encontram "documentadas as justificações para a tomada de risco contrária ao parecer" da Direcção de Gestão de Risco, nem existe "evidência que tenha sido obtida toda a informação exigível para fundamentar a aprovação da operação", como estudos de viabilidade.”
Conclusão a razão para a Caixa andar a cobrar aos clientes, em particular aos depositantes, deve-se a este descontrolo, a uma situação que só hoje o Ministro das Finanças reconheceu publicamente e reconheceu porque foi obrigado a isso, pois os números foram descobertos pelos jornais, porque até lá estava tudo no segredo dos deuses para esconder tudo isto para proteger os amigos dos poderosos que se permitem fazer actos como este, prejudicando todos nós e não só clientes da caixa, mas todos nós cidadãos portugueses.

António Manuel Guimarães

segunda-feira, dezembro 31, 2018

Feliz 2019

A todos os amigos da Cumplicidade da Alma, um excelente 2019, cheio de coisas boas.

segunda-feira, dezembro 24, 2018

sábado, dezembro 22, 2018

Eu Acuso!

A 13 de Janeiro de 1898 Émile Zola escreveu um artigo intitulado “J'accuse”. Nesse artigo acusava uma série de pessoas e instituições que tomaram parte no “caso Dreyfus” e que fizeram todo o possível para conseguir condenar injustamente o capitão Alfred Dreyfus de traição. No fim provou-se que toda essa maquinação fora feita apenas e só por Dreyfus ser judeu.
No entanto este post não pretende falar sobre antissemitismo, mas sim sobre acusação, em especial acusar aqueles que para mim são os culpados pela ascensão dos extremismos na Europa e em Portugal.
Eu acuso a União Europeia! Em 1957 nasceu do pensamento de Jean Monnet e Robert Schuman a melhor ideia política de sempre na Europa, a Comunidade Económica Europeia! Esta comunidade foi o garante da paz na Europa por mais de 60 anos. Nunca a Europa viveu tanto tempo em paz como desde a criação da CEE até aos dias de hoje. Tanto Jean Monnet como Robert Schuman viveram em primeira mão os horrores da 2.ª Guerra Mundial, sabiam que os extremismos quer de direita que levaram à guerra, quer os extremismos de esquerda que governavam o leste da Europa e ameaçavam a paz, apenas podiam ser combatidos se os países europeus passassem a viver em paz duradoura, em democracia, em solidariedade, negociando os produtos que tinham e queriam vender e os que tinham em carência ou simplesmente não tinham e que queriam comprar, sem pensar em conquistas e a remarem todos no mesmo sentido para levar à prosperidade de todos os povos da comunidade. No entanto, com o passar dos anos a ideia foi-se esbatendo. A União Europeia nasce do momento em que a solidariedade se ia esmorecendo, o bem comum passou a ser o bem de alguns e a imposição de alguns sobre todos os outros. A economia passou a ditar o que se faz, os valores humanos têm um papel secundário e a austeridade passou a ser a norma. Resultado a austeridade leva ao descontentamento, o descontentamento leva à procura de outras opções e quando todas as opções tradicionais parecem más, procuram-se novas e desconhecidas opções e claro está que os extremistas que viviam na sombra, esperavam por este momento, surgem com o mesmo canto de sereia do passado e crescem com a sua mensagem linda mas falsa e que apenas levará inevitavelmente à mesma experiência do passado, ou seja, um período de autoritarismo, egoísmo e ditadura.
Eu acuso os políticos europeus! O período de paz deveu-se unicamente a uma circunstância, os políticos que governavam a Europa democrática nas décadas de 50, 60, 70 e 80 do século XX eram Homens que sabiam o que era a guerra, sabiam o que era o fascismo, o nazismo, o comunismo, ou seja, sabiam o que era a ditadura, sabiam o que era não ter liberdade. Para além disso sabiam também que governavam para os seus povos e que se não governassem bem havia sempre os comunistas do outro lado da cortina que podiam aproveitar esse momento para tentarem expandir os seus satélites. Nesta altura a extrema direita estava em “hibernação”, nem sequer tinham coragem de falar. Quando algum se tentava por de pé, nem tinha hipótese, qualquer político deste período era inteligente o suficiente para “desarmar” intelectualmente este indivíduo, bastava demonstrar as vantagens da democracia e tolerância e se fosse preciso comparar com a vida de horror anterior. Estes sujeitos que raramente mostravam algum sinal de inteligência, viviam da esperteza, dos antigos beneficiários dos regimes do antigamente e dos desencantados ignorantes que existem sempre em qualquer sociedade. Mas os políticos de hoje não têm nada que ver com estes do passado, chegaram à política não por mérito, mas por esperteza, traições, mentiras, influências, enfim tudo o que não é desejável. Depois quando chegaram a governantes governavam, mas sempre com a sombra da corrupção a pairar, com negócios falsos, com estranhos sinais de riqueza, beneficiando os amigos ou aqueles a quem deviam favores, esquecendo o povo, esquecendo os que os elegiam, trepando para uma torre de marfim, como aquela do “Dinossauro Excelentíssimo” de José Cardoso Pires. Como se isso não bastasse são também nada sérios no exercício das suas funções, e não nos podemos esquecer dos deputados que faltam ao trabalho e pedem a outros para marcarem presenças falsas, outros que incluem falsidades no currículo como licenciaturas falsas, mestrados inexistentes ou doutoramentos falsos, ainda acrescentando actividades que nunca exerceram. Para além de toda esta falta de ética temos que constatar que a tendência é perpetuar estas práticas, como exemplo recordo a eleição de uma presidente de uma juventude partidária que inclui no seu currículo mestrados que nunca fez e cargos que nunca exerceu, um péssimo sinal para o futuro. A somar a tudo isto também temos que nos lembrar dos deputados que deram moradas falsas para receberem mais subsídios, um ato desonesto que vai directamente ao bolso de cada contribuinte e que contribui para o descrédito dos políticos, ditos democráticos portugueses. Por fim temos que dizer que estes atos para além de desonestos são pouco inteligentes, pois achavam estes senhores que na sociedade do conhecimento ficaria alguma coisa por descobrir, alguma coisa por espiolhar. Pouco inteligentes, cegos na sua soberba e incapazes de perceber que com estes actos estão a criar mais desencantados e isso é a melhor prenda para os extremistas quer de direita, quer de esquerda.
Eu acuso os grandes partidos democráticos! A maioria dos partidos democráticos surgiram nos países europeus no fim da 2.ª grande guerra, em alguns países como Portugal ou Espanha surgiram após o fim dos regimes ditatoriais como o Salazarismo e o Franquismo respectivamente. Inicialmente só se juntava a um partido quem demonstrava ser da tendência ou cor do partido e só subia hierarquicamente quem conseguia realmente destacar-se pelas suas capacidades e inteligência, qualidades fundamentais para um bom político. Os partidos foram governando, respeitando os seus princípios, normalmente alinhados com uma tendência mais moderada de esquerda, ou mais moderada de direita, mas sem nunca esquecer o social e a democracia, a maioria sobre a minoria, a igualdade de oportunidades para todos, o teórico acesso a todos de alcançar pelo seu mérito qualquer cargo, qualquer posto, qualquer situação económica. Mas claro está que governando assim há partidos que se tornam mais poderosos e se têm poder tornam-se apetecíveis para aqueles que, pretendem ter poder pelo poder e assim surgem os políticos fuinhas. Aqueles que independentemente do que pensam apenas entram num partido pela oportunidade de ascensão social que podem alcançar através da esperteza. Não têm que acreditar na linha ideológica do partido, apenas têm que acreditar que o partido lhes dá um cargo, uma oportunidade de enriquecer, de mandar, ou simplesmente, um tacho. Não raras vezes é possível ver hoje esta gente a apoiar extremismos, mostrando que nunca passaram de extremistas oportunistas que viviam do que os partidos democráticos lhes davam. Alguns destes políticos fuinhas ganharam tanto poder que meteram nos cargos dos partidos a sua seita de fuinhas, espalhando esta doença como se de um vírus se tratasse, ocupando um partido como um hospedeiro, acabando por transformar o partido antes democrático num antro de falta de integridade, de muito amiguismo e a corrupção deixou de ser a excepção para ser a regra.
Eu acuso a comunicação social! Nasci numa família onde se lê bastante, o meu pai fazia questão de comprar o jornal diário todos os dias e já se sabe que depois do jantar era hora de ver o noticiário na televisão, portanto cedo comecei a perceber a importância da informação e também cedo comecei a folhear as páginas dos sempre presentes jornais. Sempre me impressionou a qualidade dos jornais do passado, um erro num artigo, dava direito no dia seguinte a um pedido de desculpa, uma notícia era confirmada e reconfirmada e só depois publicada, ou seja, a integridade e seriedade eram tidas como capital. Mas com o passar dos anos foi surgindo uma nova realidade na comunicação social, pois alguém chegou à conclusão de que a comunicação social era um negócio que tinha tudo para dar grandes lucros. Daqui surgem duas opções, ou os jornais faziam o difícil que seria apostar ainda mais na qualidade, na seriedade, na confirmação da notícia e na integridade, tornando-se competitivos pela qualidade, levando sempre a uma melhoria e tornando-se necessários e cumprindo a sua missão de informar, ou então faziam como realmente fizeram, que foi exactamente o oposto do referido anteriormente, foram pelo caminho fácil, a qualidade é uma miragem, a seriedade uma quimera, a confirmação da notícia uma utopia, tornando-se competitivos para ver quem é que choca mais, quem dá mais rapidamente informações bombásticas e replicam estas “notícias” enquanto derem vendas ou audiências, quando deixarem de dar passam para outro escândalo, ou outro mexerico. Qualquer mexerico, qualquer situação é empolada conforme se vende ou será rapidamente descartada se não vender, a importância de informar a sociedade pouco importa. Não informam, são apenas barulhentos e espetáculo puro e duro. Como exemplo relembro o caso do BANIF, um banco que faliu por causa de uma notícia bombástica, mas falsa, algo que provocou grandes danos quer ao estado, quer a pequenos investidores, que em vários casos perderam as poupanças de uma vida. Mas os meios de comunicação não contavam com um elemento novo que surgiu no início do século XXI e se foi disseminando ao longo dos anos, falo da internet, em particular das redes sociais e aqui surgiu um grande problema. Os jornais viviam na certeza que apenas tinham que competir uns com os outros, e a internet veio baralhar esta certeza. Repentinamente os jornais tinham que competir primeiro com blogues, depois com as redes sociais. Em que muitas vezes gente sem formação nenhuma, sem nenhum conhecimento em particular escrevem aquilo que acham ser verdade, expõem ideias, pensamentos e notícias. Devido ao caminho da notícia espectáculo a credibilidade dos jornais não era muita e as vendas passaram a cair a pique, e mesmo quando os jornais se ligaram à internet já vieram atrás do prejuízo. Ainda tentaram defender a legitimidade dos jornais relativamente ao domínio da informação, mas a verdade é que quando tinham o seu monopólio trataram-na tão mal que ninguém ligou. Mas daqui não surgiram vantagens, temos blogues para desencantados normalmente liderados por extremistas de esquerda e de direita que procuram capitalizar descontentamentos de forma aumentar as suas hostes. E os próprios jornais para se adaptarem começaram também a defender tendências, e assim, uma pessoa que lê o Expresso, não é uma pessoa que lê o Observador, uma pessoa que lê o Público não lê o Diário de Notícias e uma pessoa que lê o Correio da Manhã simplesmente não gosta de estar informado.
Eu acuso a educação! Em Portugal o ministério da educação nunca teve pessoas tão bem preparadas como tem hoje, nunca na nossa história havíamos tido um período em que todos os professores tivessem um curso superior como hoje acontece. No entanto a forma como o estado tratou a educação foi sempre de uma forma descuidada e não poucas vezes turbulenta, e somente porque acham que se gasta muito dinheiro com a educação, mais uma vez, a economia acima de tudo. Turbulência essa que muitas vezes serve o propósito de desacreditar os professores e secundarizando a importância do ensino, prejudicando a imagem da própria escola e transmitindo ideias erradas para a sociedade. Sociedade essa que devia entender a importância da escola e devia proteger aqueles que cuidam do futuro dos seus filhos e, no fundo, o futuro de Portugal, e que esquecem que a escola pública é o garante da democracia na educação e o que dá a oportunidade de qualquer aluno a chegar ao lugar que ele ambiciona, sem olhar para o seu dinheiro, para a sua família ou qualquer outro aspecto da sua personalidade. No início da segunda década do século XXI, uma das grandes preocupações foi distratar mais particularmente as ciências sociais. Tínhamos e temos “Camilos” a vir para os jornais e televisões dizer em plenos pulmões que a história não interessa nada porque não contribui para a economia. O “Camilo” era só um arauto da lógica ignorante que se instalava em Portugal relativamente a um pensamento extremo de neoliberalismo, as ciências eram importantes, as engenharias o futuro e tudo o resto era desperdício de recursos. Era um claro sinal que o que se pretendia era um engenheiro servil e obediente que não soubesse pensar por si. De repente as pessoas deixaram de querer as humanidades, a filosofia e a história foram relegadas para segundo plano e isso acima de tudo é um caminho para a ruína e um favor para os extremistas. A História ensina que nada do que hoje se passa é novidade para a humanidade, ensina que este caminho já foi trilhado e com resultados muito nefastos, pelos mesmos motivos dos actuais e apesar de ter actores diferentes, eles actuam exactamente como no passado. A Filosofia por sua vez ensina a pensar, a perguntar, a querer saber, a procurar a resposta para lá do evidente e a entender a realidade do que nos rodeia. Ou seja, as humanidades são detestadas pelos políticos, porque nada melhor para um político do que um técnico superior, que não sabe pensar por si, que obedece cegamente e que não questiona, que não quer saber de nada para além daquilo que estudou, não reconhece sinais de alerta e não poucas vezes acha que sabe o que nem sequer sonha. Um servil com canudo. Essa ignorância superior é aproveitada pelos extremistas quer de direita, quer de esquerda, que vão buscar estes incautos, juntam-nos aos seus quadros e usam-nos como meios de legitimação das suas ideias, dizendo que o Sr. Dr. tal está connosco, ou o Sr. Engenheiro X partilha das nossas ideias. Também relativamente à educação não podemos esquecer a falta de adequação dos cursos à realidade do trabalho existente, temos das melhores universidades em determinadas áreas, os alunos que saem estão geralmente bem preparados tecnicamente, mas não encontram emprego em Portugal, simplesmente porque não há trabalho para aquela função, ou seja, para trabalhar têm que emigrar e tal é a qualidade da sua preparação técnica que são recebidos de braços abertos por essa Europa fora, até porque os países para onde eles vão pagam melhor e sabem que não tiveram que investir um euro na formação daquele individuo. Assim a factura foi paga por Portugal, o benefício, esse, foi da Inglaterra ou da Alemanha.
Eu acuso a justiça portuguesa! Não se trata de acusar os juízes, não se trata de acusar os funcionários judiciais, não se trata de acusar os agentes da autoridade, mas é acusar a justiça cativa que temos em Portugal! Um gravíssimo problema da nossa justiça está naqueles cuja função é apresentar e aprovar as leis, ou seja, os deputados da Assembleia da República. Muitas das grandes queixas dos políticos em Portugal está relacionada com os interesses corporativistas, eles são os interesses corporativos dos enfermeiros, os interesses corporativos dos professores, dos funcionários da carris e até os interesses corporativos dos polícias, mas ninguém fala do pior deles todos que é o interesse corporativista dos deputados, isto porque grande parte dos deputados são advogados e não menos grave, continuam a exercer a actividade, porque pasme-se, não é considerado incompatível, quando, por exemplo um funcionário público eleito tem que cessar funções na entidade pública em que trabalha, porque é incompatível. Agora vejamos, o deputado faz as leis que o tribunal tem que aplicar, e considerando que assim é e considerando que a maior parte dos deputados são advogados que exercem a profissão, temos esta situação de termos leis boas para advogados. Assim temos milhentos recursos, a maioria com efeitos suspensivos de penas, ou seja, um arguido com dinheiro pode ir de recurso em recurso até ao dia em dá o último suspiro sem sentar o rabinho na cela um minuto que seja. Assim fica sempre aquela sensação real de impunidade por parte dos políticos acusados de corrupção, que mesmo depois de condenados a penas efectivas andam por aí livremente, temos até o caso do arguido condenado mas que ficou em liberdade para passar o Natal com a família. Isto enquanto o cidadão comum, com menos poder económico é condenado, vai para a cadeia e por lá fica simplesmente porque não pode pagar os recursos que o podiam soltar. Uma justiça eficaz para os pobres, mas extremamente tortuosa, longa e leve para os poderosos. Claro que as extremas têm tendências em apontar estas situações como manifestações de injustiças e até têm razão, o único problema é que, nos sítios onde mandaram a justiça não era melhor, era bem pior, primeiro porque os alinhados nem a tribunal chegavam e os pobres e os democratas não eram presos por não ter dinheiro, mas simplesmente por aquilo que pensavam ou diziam.
 
António Manuel Guimarães